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Dentro de um livro

Minha mãe é melhor pessoa do mundo. Além de ser uma advogada famosa, ela é uma esposa atenciosa com meu pai, e uma espectadora frequente de minhas apresentações de ballet desde que eu tinha 6 anos. Ela nos fornece uma ótima base familiar. Seu bom humor é algo único e especial. Ela sempre nos faz rir.
Nesta manhã, eu estava limpando a estante de livros dela. Acidentalmente derrubei um dos livros antigos no chão. Havia um marcador de páginas diferente nele: um velho pedaço de jornal.
Nele estava escrito: “Eu tenho 17 anos de idade. Sou alcoólatra, sou drogada, abandonei meus estudos, fui vítima de abuso infantil, e tenho registro criminal por roubo de carros. No próximo mês, o título de mãe adolescente será acrescentado à minha lista. Mas eu juro que vou fazer as coisas serem diferentes para a minha menina. Eu serei a mãe que eu nunca tive.”.
E você conseguiu, mamãe.

Bloody Eyes – 02 (Trecho do Livro)

1.
Sexta-feira.
Um ruído alto de motor é ouvido, seguido de um vulto que rompe o véu da neblina noturna. Um antigo carro vermelho avança por entre as ruas de Cantuária, com seus redondos faróis de milha anunciando sua presença solene.
Na lateral deste carro está gravado “Sabre”, em estilizadas letras negras.
O sistema de iluminação publica da cidade funciona relativamente bem, salvo, é claro, por algumas falhas rotineiras, como as duas lâmpadas queimadas no alto de um dos postes, perto da esquina que o cupê se aproxima.
No semáforo acende uma luz vermelha.
Com uma freada brusca, o carro para diante da faixa de pedestres.
Vindas da esquerda, algumas pessoas bêbadas caminham trôpegas pela faixa de pedestre, na direção da calçada do outro lado da rua. O pequeno grupo é composto basicamente por mulheres – todas de saias curtas, vestidos justos e afins – e uma quantidade reduzida de rapazes – provavelmente universitários, uma hipótese deduzida devido às suas camisas sociais entreabertas e seus cabelos moderninhos besuntados de gel.
Enquanto caminhavam, os homens trocavam beijos e carícias com algumas das mulheres, enquanto as demais também faziam o mesmo – só que umas com as outras. O sinal abre no exato momento em que o animado grupo de amigos alcança a margem oposta à que estavam.
O potente e antigo veículo vermelho dispara como uma flecha pelo asfalto afora, seguindo por mais cinco quadras antes de virar à esquina e seguir por uma estreita rua de mão única.
A noite estava fria e, mesmo assim, as calçadas estavam ocupadas por jovens visivelmente alterados que, se estivessem manchados de vermelho, se passariam tranquilamente por zumbis.
Em um beco escuro, um casal de estranhos arfava e se movia de maneira ritmada.
E por entre toda a libertinagem da noite, um carro segue rumo ao seu destino – como um silencioso observador da própria decadência humana.
Após mais alguns minutos, instantes nos quais algumas ruas e vielas foram habilmente percorridas, o automóvel finalmente chega ao seu destino.
O veículo escarlate é estacionado diante de um imenso sobrado comercial, em cujo letreiro lê-se:

Mundo Surreal – Produções Digitais
Organizamos, fotografamos, e filmamos casamentos, luas de mel, festas de despedida de solteiro, pagamento de impostos, internações no hospício, aniversários, velórios, etc.


Os faróis são apagados. Na penumbra noturna, as duas negras faixas gêmeas que percorrem o meio do carro quase se misturam ao vermelho vivo do restante da lataria.
As duas portas laterais do veículo abrem-se ao mesmo tempo. E, de dentro dele, emergem Dorian e Renato. Após desembarcarem, tornam a fechar as portas do veículo. Alguns outros automóveis estão estacionados nas redondezas.
Renato olha para a edificação.
– Você tem certeza que é aqui?
– Quem sabe? – responde Dorian, com um sorriso sarcástico estampado em seu rosto.


2.
Longe dali, em um refinado restaurante da cidade, um casal é abordado por um educado garçom:
– Aqui está o menu de sobremesas, Senhor e Senhora Jekyll.
– Obrigado Pablo – responde Eduardo.
O homem se curva respeitosamente, e deixa o casal desfrutar de sua intimidade.
– Adorei o lugar, amor. Aqui é tudo perfeito! Obrigada.
Eduardo segura carinhosamente a mão de Mônica.
– Você merece o melhor, meu amor. Além do mais, hoje é uma data especial pra gente, não é? – Ele sorri calorosamente.
– Verdade. Não é todo dia que se completam dois anos de casamento.
O ambiente de fato é magnífico, com seus imensos lustres de cristal, seus ornamentos dourados nas paredes, suas estatuas importadas distribuídas ao longo do recinto, os quadros de grandes artistas fixados no hall de entrada... Tudo muito delicado, e muito aconchegante. Um pequeno grupo de instrumentistas tocava alguns clássicos da música erudita.
Os dois jovens estão trajados de maneira realmente elegante: Eduardo em seu smoking preto, e Mônica com seu vestido de gala lilás – um grande contraste com as habituais roupas escuras e batidas que ambos gostam tanto de usar.
O casal troca um apaixonado beijo.
– Eu te amo, querida.
– Também te amo, meu gatinho.


3.
– Medicamentos! Comprem aqui seus medicamentos! – Gritava um pequeno rapaz oriental, recostado à parede, com uma bandeja de itens a tiracolo. Seu sotaque “cantado” é característico. – Temos emplastos hemostáticos, curativos, analgésicos, pó de guaraná, esparadrapos...
Dorian e Renato passaram pelo vendedor sem lhe dar muita atenção. Uma pequena multidão se aglomerava dentro do recinto. A dupla segue abrindo caminho por entre estas pessoas. Uma agitada música eletrônica anima o lugar. Após cruzarem o mar de gente em polvorosa, chegam ao canto oposto da ampla sala, onde se situava um guichê improvisado sobre um balcão de informações.
– Boa noite – saldou o homem sentado atrás do balcão, com a barba ainda por fazer. – Quem vai lutar?
– Nós dois – respondeu Dorian.
– Certo. Aqui estão suas autorizações para entrar na arena, e os termos de responsabilidade. Preencham completamente cada ficha: nome completo, idade, número de identidade, e raça a qual pertence. Assinem aqui, aqui, e aqui, confirmando que assumem total responsabilidade caso venham a falecer durante a luta.
– Certo – concordou Renato.
Pegaram suas respectivas fichas e as preencheram, devolvendo-as logo em seguida. O homem do guichê analisou a ficha de Renato Hyde, rabiscou um OK com uma caneta de tinta vermelha, e guardou o documento. Após isso, pegou a ficha de Dorian. Observou ela por um instante, e ergueu os olhos para encontrar os do rapaz.
– Tem certeza que quer lutar, Senhor Dorian Drake? No geral, aqui competem apenas mutantes, metamorfos, e outras pessoas de poder sobre-humano. E você declarou não pertencer a nenhuma raça de poder, sendo apenas uma pessoa normal... Devo dizer que isso é quase um suicídio...
– Fique tranquilo, amigo. Me matar não é algo tão fácil de se fazer – responde Dorian, com um sorriso confiante.
– Você quem sabe então. Espero que suas habilidades sejam tão grandes quanto o seu ego – respondeu com uma feição simpática, enquanto assinalava um OK na respectiva ficha.
O homem do guichê entregou uma moeda para cada um dos dois: um pequeno disco prateado, com uma caveira de um lado e um falcão do outro. Eles guardam os itens, e seguem novamente pelo meio da multidão.
Eles caminham para a parte de trás do estabelecimento, seguindo por um estreito corredor, até chegar ao amplo salão de um anfiteatro. O lugar está abarrotado de indivíduos. No meio da floresta de gente há uma clareira circular, da qual se originam sons de um combate. Dorian e Renato se aproximam, e no meio desta arena dois homens lutavam de maneira feroz. Um deles tinha cabelos negros, lisos e longos, cujo rosto era dotado de um aspecto indígena; está sem camisa e sem sapatos, com a superfície musculosa de seus braços e tórax recoberta por um tipo de armadura feita de grossas escamas protuberantes, projetadas de alguns lugares abaixo de sua pele. O seu adversário é um pequeno e magro homem oriental, de cabelos negros curtos e bem penteados; também está sem camisa e sem sapatos; e em cada antebraço seu projeta-se uma larga e afiada espada de osso, com cerca de quarenta centímetros de comprimento, do punho ao final da lâmina.
O homem que possui uma armadura natural é lento demais em comparação ao seu pequeno e ágil adversário, mas sua poderosa defesa equilibra o combate. Em um ataque rápido, o homem de longos cabelos negros joga o seu inimigo no chão, trava um dos braços navalhados dele com suas duas mãos, e o imobiliza com uma chave de pernas no pescoço.
Em uma ação digna de um contorcionista, o pequeno rapaz oriental move o seu braço livre, serpenteando-o, e finca a espada de osso no punho do seu agressor, aproveitando-se de uma brecha entre as grandes escamas do braço dele.
Ele perde a concentração por um instante, dando espaço para uma rápida fuga do seu combatente. Antes de qualquer chance de ataque, as potentes lâminas de osso trespassaram as fendas existentes nas juntas dos ombros, arrancando um grito de dor do imenso homem escamado.
Olhando para o juiz, o homem de cabelos longos ergue a palma da sua mão direita, sinalizando a sua derrota. Ao ver o gesto, o juiz exclama em bom tom:
– Fim da luta entre Antônio, o encouraçado, e Jin, o açougueiro! Vitória de Jin!
Um adolescente se apressa para o meio da arena, a fim de socorrer o homem ferido. Pela notória semelhança entre os dois, sem duvida são irmãos. Estancando os sangramentos, o jovem ergue o guerreiro recoberto de escamas e o apoia em seus passos, enquanto o parabeniza pela grande luta.
Enquanto isso, Jin recebia do árbitro o pagamento pela vitória no duelo.
Por fim, o juiz, de dentro do espaço vazio usado como ringue, anuncia em tom animado:
– E então, quem serão os próximos lutadores desta noite?
Alguém adentra o espaço de combate, apresentando a moeda prateada ao árbitro.
– Eu lutarei agora – afirmou um homem polaco, alto e musculoso, usando apenas sandálias, uma camiseta branca, e um short azul.
– Identifique-se! – Exclamou o juiz.
– Eu sou Paul, um cíclope gouliano.
Voltando a anunciar no seu microfone sem fio, o árbitro continua a coordenar o espetáculo:
– Alguém aqui se atreve a desafiar Paul, o cíclope gouliano?
Um homem negro, trajando um terno azul anil muito bem alinhado ao seu corpo esguio, adentra o espaço aberto, também apresentando uma moeda prateada.
– Eu desafio.
– Identifique-se! – Repetiu o juiz, com sua característica e animada voz de narrador.
– Eu sou Alessandro, um homúnculo.
– Ambos estão de acordo com seu respectivo adversário?
– Sim.
– Sim.
– Certo. Como todos sabem, cada rodada custa sessenta pratas, sendo cinquenta para o prêmio, e dez para o comitê organizador. O vencedor do combate leva as cem pratas!
Os dois adversários pagam o valor estipulado.
– Certo, certo. Agora vamos às regras: as lutas são sempre de um contra um, e ambos sem camisa e sem sapatos; não é permitido o uso de armas, a não ser as que já fazem parte de seu próprio corpo; não é permitido matar o adversário; a luta acaba quando um dos adversários se render, ou se eu precisar interferir por algum motivo grave; e o combate não tem limite de tempo. Cavalheiros, preparem-se para lutar!
Seguindo a ordem do árbitro, os dois tiram a parte de cima de suas roupas, revelando não portarem nenhum tipo de arma ou armadura escondida. Retiram também os seus calçados. Após este nivelamento, os dois iniciam uma transformação completa de seus corpos, com Paul assumindo a forma de um cíclope gouliano (uma amarronzada criatura peluda e com um único olho, cuja cabeça e o tronco são uma coisa só), e Alessandro a assumindo a forma de um homúnculo (um ser roxo e sem pelos, de membros longos e aspecto maleável, como se fosse feito de borracha).
As duas feras se encaram.
Satisfeito, o juiz prossegue sua narrativa:
– Certo, certo. Agora que tudo já está pronto, que o combate se inicie!
Com a ordem, os dois monstros se atracam em uma disputa violenta, enquanto a plateia vibra com o espetáculo. A eufórica música eletrônica que se propaga pelo ambiente cria um clímax intenso e competitivo.
– Hoje temos combatentes fortes, hein? – Comenta Dorian, em tom razoavelmente baixo.
– Verdade. O quebra-pau do mês passado só tinha fracotes, nem deu graça... – Responde Renato, com um sorriso empolgado. – Mas hoje, parece que vai valer a pena derramar um pouco do meu sangue na arena.
Dorian sorri, sarcástico.
– Só não fique brincando com os adversários desta vez, senão acho que você pode se dar mal.
– Olha só quem está falando...
Um após o outro, novos duelos se seguiram.
Às vezes, o campeão do combate ficava no espaço aberto para lutar mais algumas rodadas, de acordo com a resistência que ainda dispunha. As lutas não tinham ordem, e muito menos regras técnicas de classificação: lutava quem quisesse, e a hora que quisesse.
Tudo em nome da diversão...

Bloody Eyes – 02

“Nós somos forças da natureza.”

Renato e Eduardo são sócios em uma casa noturna. Porém, os desafios que eles encontram vão muito além de estocar bebidas e atender clientes. Cicatrizes de um tempo esquecível se escondem em cada beco escuro da cidade. E em meio a todo este caos noturno de uma metrópole violenta, algumas memórias do passado deles vêm à tona.




Estrela Cadente

“Mãe, veja lá no céu”, disse a pobre menina de olhos inocentes. “Uma estrela está caindo! Eu vou fazer um pedido!”
A mulher sorri, e abraça fortemente a sua filhinha sorridente e sonhadora.
A cadente, que de estrela não tinha nada, toca o chão com violência.
Uma explosão é ouvida. Depois um clarão é visto. Depois nada mais.

Feliz ano novo!

Foi uma longa jornada até chegar aqui.
E aqui, do alto do edifício, eu vejo as pessoas lá em baixo. Elas parecem pequenas formigas. E as luzes são pequenos vagalumes.
Olho para o céu, e vejo os fogos de artifício.
Não importa quão alto eu esteja, eu não estou no topo do mundo. Minhas mãos não podem alcançar as luzes flamejantes lá em cima.
Mas os risos das pessoas lá em baixo conseguem me alcançar. Posso ouvir elas rompendo meu silêncio solitário.
Meu caminho não acabou, mas ele não continuará da mesma forma que foi antes. Hoje, as minhas linhas da vida serão renovadas nas palmas de minhas mãos.
Tomo um gole em minha bebida.
Um passo em direção ao abismo.
Assim começa meu ano novo.

Um Ciclo Infinito...

Havia um menino que tocava piano muito bem, e que desejava ser um pianista profissional quando ele se tornasse adulto. Ele queria compor as mais lindas sinfonias de todos os tempos.
Assim como as outras crianças, ele era um sonhador. E não há nada mais sonhador do que ser um realizador de sonhos.
Ele achava que o mundo era algo simples. E que, por isso, o mais importante era escolher o caminho que lhe fizesse feliz. Mas então, seus familiares, que eram pessoas amarguradas que mataram seus próprios sonhos em nome de algo que eles chamavam de “Sobrevivência”, começaram a dizer suas teorias sobre fracasso e tristeza. Disseram que todo aquele que persegue um sonho termina arruinado.
Eles disseram isso tantas vezes, que um dia o menino sentiu medo... Medo do futuro, medo de desapontar sua família, medo de fracassar. Sem perceber, ele começou a viver os sonhos de outras pessoas ao invés de viver os seus próprios. Ele começou a viver os sonhos mortos de seus familiares que tinham medo de sonhar.
E isso, evidentemente, não o fez feliz.
Ele tentou ser médico, porque seu pai queria que ele fosse um médico. Mas isso não deu certo. Ele tentou ser engenheiro, porque sua mãe queria que ele fosse um engenheiro. Mas isso também não deu certo. Ele tentou ser um vendedor de seguros porque seu irmão queria. Ele tentou ser um motorista de ônibus porque seu tio queria. Ele tentou ser um analista de sistemas porque sua tia queria. Tentou ser um carpinteiro porque seu avô queria. Tentou ser um advogado porque sua avó queria.
Ele tentou viver os sonhos de outras pessoas por tanto tempo, que um dia ele percebeu que já não era mais um menino. Ele era um velho agora. Ele se sentia amargurado e fracassado, preso em um emprego que odiava, e preso em uma vida que o fazia infeliz. Ele tentou viver por tanto tempo os sonhos de outras pessoas, que agora sentia que era tarde demais para ele viver os seus próprios sonhos.
Por isso, ele começou a colocar suas esperanças em sua filha. Mas havia um problema: ela queria ser professora de matemática, pois ela amava matemática.
Ele teve medo dela ser infeliz e começou a sabotar o sonho dela. Ele achava que ela só seria alguém na vida se fosse uma pianista. Ele fez de tudo para que ela ficasse com medo de ser professora.
Ele tentou amedrontá-la por tantas vezes, que um dia a menina sentiu medo... Medo do futuro, medo de desapontar sua família, medo de fracassar. Sem perceber, ela começou a viver os sonhos de outras pessoas ao invés de viver os seus próprios. Ela começou a viver os sonhos mortos de seus familiares que tinham medo de sonhar.
E ela tentou ser uma pianista... Mesmo ela desejando ser uma professora...
Quantos sonhos morrem todos os dias apenas por nós pensarmos na felicidade das outras pessoas ao invés de pensarmos em nossa própria felicidade?

O funeral de Damião

Já escurecia quando o velório de Damião estava se encerrando. O evento fúnebre de sua partida havia começado pela manhã, logo ao raiar do dia, e se estendera até agora.
Dentro de um marchetado caixão de mogno, cuja tampa estava recostada na parede, ao lado de uma coroa fúnebre de flores, Damião jazia em seu último terno azul-marinho. Suas exageradas e valiosas joias, que sempre fizeram parte do seu cotidiano, não poderiam deixar de estarem presentes. Sua última vontade, expressa em seu testamento, foi de que os seus ornamentos o acompanhassem para a outra vida, tal qual a riqueza acompanhava os milenares faraós. E sua esposa Maria, sempre dedicada durante o casamento de cinquenta e três anos, fez com que seu desejo fosse cumprido.
Agora que toda a cerimônia do velório se encerrara, e o sepultamento tornara-se iminente, Maria sente suas forças deixando-a. Aproxima-se do caixão, beija os lábios de seu finado marido uma última vez, e senta-se em uma cadeira próxima da entrada da capela mortuária. Seus demais parentes fazem uma fila, a fim prestarem as suas últimas homenagens ao falecido.
O primeiro da fila, um homem de quarenta anos que, em vida, Damião julgava ser seu melhor amigo, acende uma das sete velas no imenso candelabro diante da cabeceira do caixão. Aproxima-se de Damião e o abraça com ternura, enquanto remove discretamente a gargantilha de ouro branco incrustada de esmeraldas do pescoço do cadáver. Ao fazer isso, guarda-a no bolso, e senta-se em uma cadeira.
O próximo é seu jovem cunhado que, diga-se de passagem, deve tanto as graduações em direito quanto o próprio escritório de advocacia ao velho sogro. Acende a segunda vela. Depois, aperta a mão direita do cadáver, enquanto retira os anéis de ouro cravejado de rubis. Guarda seu furto, e se afasta do caixão.
Seu velho primo, o último ainda vivo em sua família, acende a terceira vela no candelabro, e saúda seu finado parente, enquanto remove os anéis de ouro com brilhantes da mão esquerda do morto.
Sua filha acende a quarta vela. Ela abraça carinhosamente seu pai pela última vez, enquanto lhe rouba os broches de ouro com brilhantes fixados no terno.
A seguir, seu irmão mais novo acende a quinta vela e, em meio às despedidas, furta as pulseiras de prata e ouro que o cadáver usava.
Seu irmão mais velho acende a sexta vela, e rouba do defunto o gigantesco colar de ouro incrustado de jade e ametistas.
Seu filho caçula acende a sétima e última vela. Com uma tristeza teatral, se joga sobre o corpo do pai, despedindo-se de uma maneira comovente, enquanto lhe toma as últimas joias que sobraram: as abotoaduras de ouro com diamantes.
Após as despedidas, as pessoas ali se reúnem e, juntas, cobrem o caixão de Damião com a detalhada tampa de mogno.
Cada pessoa que lhe acendeu uma luz na escuridão, pegou algo valioso como pagamento...

A janela do meu mundo

Rostos sorridentes, olhares radiantes, vidas perfeitas.
É isso o que eu vejo.
Amigos reunidos, casais felizes, festas animadas.
É isso o que eu vejo na minha janela.
Empregos fascinantes, viagens incríveis, sonhos realizados.
É isso o que eu vejo na minha janela feita de pixeis.
Imóvel dentro desse hospital, aguardando minha doença fatal me consumir, tudo o que eu posso fazer é ver...

O Diário de um Sobrevivente (Trecho do Livro)

Em um quarto sujo e bagunçado, dentro de uma casa abandonada, um garoto dorme sobre um colchão mofado e fedorento que está jogado em um canto. Ao seu lado, no chão, há uma grande mochila de acampamento, feita de um resistente tecido camuflado, e nitidamente abarrotada de coisas.
Sua única defesa contra o frio intenso desta noite tempestuosa é a manta que o recobre. E o único conforto que dispõe é um macio travesseiro, rasgado em uma de suas laterais.
Um pesado armário de madeira foi empurrado e recostado à porta fechada, servindo de escora para impedir alguma entrada indesejada. O buraco na parede, alto e estreito, onde antes existiu uma janela, está defendido apenas por um pedaço rasgado de lona preta, presa por tachinhas e fita adesiva.
Iluminada pelo clarão de um relâmpago, a lona é rasgada ao meio por sombrios volumes que invadem o quarto em grande velocidade. Em um movimento muito rápido, o garoto pega uma pistola em baixo de seu travesseiro, e a aponta na direção de uma criatura que saltara sobre ele. O clarão do disparo revelou uma raposa caindo morta com uma perfuração na cabeça, e outras quatro rodeando o colchão.
Um salto para trás esquiva-o de uma nova investida. Com um forte chute, derruba outro que se aproximava pela lateral. Mira sua arma na direção de um de seus predadores e efetua um disparo certeiro, matando-o.
Aponta para o próximo alvo, e puxa o gatilho.
Mirando na próxima raposa percebe, pelo som vazio, que a sua arma está sem munição. Uma dor aguda emerge de seu braço, quando o outro animal aproveita-se de sua distração para atacá-lo. Com uma violência animalesca, ele usa a empunhadura da pistola com um tipo de martelo, esmagando o crânio da fera que o morde com tanta força.
O último dos caçadores, ao ver que seus companheiros haviam sido mortos, recua para a janela e foge, desaparecendo noite adentro.
O menino abre um dos bolsos laterais de sua mochila, pega um kit de primeiros socorros e faz rapidamente um curativo em seu braço ensanguentado. Após isso, abre outro bolso da mochila, guarda sua pistola descarregada, e pega uma espingarda de cano duplo e algumas munições para ela.
Sentando-se no colchão, lagrimas brotam de seus olhos apavorados, enquanto ele empunha firmemente sua arma, mirando no buraco da parede por onde seus predadores entraram.


17 de fevereiro de 2014.
Esta é a ultima vez que eu acrescento alguma coisa neste diário.
Como eu disse na primeira página destas anotações, eu sempre quis ser escritor, por isso resolvi escrever sobre a minha própria vida. Seria uma forma de ensaio, um jeito de praticar minha habilidade... E o fato de relatar o meu cotidiano já me foi muito importante... Mas, agora, não têm mais nenhum significado...
Hoje é o meu aniversário. Completo 16 anos... Até comemoraria, se houvesse alguém para dividir esta comemoração comigo.
A última vez que cruzei com um ser humano foi há uns seis meses. Era uma criança, de uns onze anos no máximo... Ele tentou me matar pra roubar tudo o que eu tinha. Não tive escolha, era ele ou eu...
Enfim...
Desde aquele dia comecei a pensar, e vejo agora que não foi o mundo que mudou: fui eu que mudei. Foi a humanidade que mudou. O mundo continua o mesmo. Apenas fomos obrigados a lutar por nossa sobrevivência.
E, depois de muito pensar, também cheguei à conclusão de que não há mais razões para continuar com este diário, e nem com esse meu sonho de ser escritor! A raça humana conseguiu estragar tudo! Não existe mais nenhuma editora, não existe mais internet, não existe mais rádio, não existe mais televisão... Não existe mais nada onde se possa divulgar alguma coisa...
Assim como tantos outros, eu acreditava que tudo voltaria a ser como era antes. Acreditava que, mais cedo ou mais tarde, tudo voltaria ao normal.
Mas, como disse, nesses seis meses, eu refleti muito sobre tudo isso... E percebi que nada vai voltar a ser como era... Nunca mais...
A humanidade sempre foi tão orgulhosa de sua tecnologia... Tão cheia de si sobre seu potencial... É Irônico que tudo tenha acontecido desse jeito.
Deixo este diário para que saibam que um dia eu existi neste planeta. Que um dia eu tive sonhos e esperanças... Tudo de mim está registrado neste livro... Tudo o que eu sou... E tudo o que tinha potencial para realizar...
Só que agora, nada disso importa...


...

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Bloody Eyes – 01 (Trecho do Livro)

1.
Rodovia Santa Mônica.
Quilômetro 42.
Em uma noite fria de outono, um luxuoso veículo cupê – vermelho, duas portas, último modelo – corre a 160 Km/h, manobrando e ultrapassando todos os outros carros e caminhões que estão na estrada – não que sejam muitos, pelo contrário.
Naquela noite de lua crescente, anunciaram na TV que poderia chover forte nessa região – mas o céu estrelado e sem nuvens insiste em afirmar o contrário.
Não é possível ver quem está pilotando o esportivo vermelho, pois todos os vidros, inclusive o para-brisa, são recobertos por uma escura película de tom enegrecido.
O intrépido automóvel acelera cada vez mais, saboreando a velocidade que o seu potente motor lhe proporciona. O vento quase assovia quando passa pelo aerofólio, fixado no final do seu estilizado corpo. As prateadas rodas de liga leve brilham ante as luzes dos postes, que iluminam a rodovia em toda a sua extensão. Os faróis do carro parecem os olhos de um animal selvagem, momentos antes do derradeiro bote em sua presa. A lataria está em perfeito estado, reluzente e sem um arranhão, o que faz parecer que o carro acabou de sair de uma concessionária.
O belo esportivo vermelho continua seguindo em frente, até que, na linha do horizonte, surge um estabelecimento curioso: um pequeno bar de estrada, cujo telhado mal cuidado e as grandes janelas quadriculadas lhe conferiam um aspecto rústico.
A velocidade é reduzida gradativamente.
O carro é estacionado na frente do recinto.
Sobre a escura e acastanhada porta dupla de madeira – daquelas que se vê nas entradas dos Saloons, em antigos filmes de faroeste – há um painel de neon vermelho, no qual está escrito:

Lloyd’s Bar

A fachada do bar, recoberta por uma chapada pintura na cor verde-musgo (que já estava descamando, diga-se de passagem), não é nem um pouco chamativa. Porém, as antiquadas janelas de madeira envernizada tinham lá o seu charme.
O motor do veículo é desligado.
A porta do motorista se abre.
Um jovem e alto rapaz desce, fitando a entrada do velho bar com seus olhos castanho-esverdeados – olhos que geram um bom contraste com sua pele branca, levemente bronzeada.
A porta do carro é fechada. Seu braço esquerdo se levanta, e seus dedos correm por seus curtos cabelos castanho-escuros, naturalmente arrepiados. Sua expressão é serena e enigmática.
Ajeita a gola de sua camisa abotoada – uma xadreza, quadriculada de vermelho e branco – que recobre uma camiseta branca. Retira, de um dos bolsos da frente de sua batida calça jeans azul, um celular preto com detalhes cromados, e observa o display do aparelho: como plano de fundo há uma imagem de Yin-Yang – envolto em um disco solar, como se fosse um tipo de eclipse –, e no canto superior direito da tela, um relógio digital, marcando 00:37.
Caminha em direção à entrada. Seus passos são elegantes, calmos, e despojados – combinando com o tênis branco de solado baixo que usa.
Aproxima-se da portinhola, e abre-a. Apesar de não ser muito grande e nem muito espessa, a notória corrente de prata em seu pescoço brilha, refletindo as luzes do ambiente.
Adentra no recinto: um espaço relativamente amplo, preenchido por quatro mesas de sinuca, uma máquina de pinball (cujo tema deve ser “As Gostosas Garotas de Biquíni contra o Aliens do Mal”, ou qualquer coisa assim), e algumas máquinas arcade – só os clássicos games de luta.
O assoalho batido, o papel de parede em tom madeira, e os simples porém chamativos lustres criavam um agradável efeito de um ambiente rústico. Ao fundo, o balcão do bar, onde uma bela e habilidosa barmaid ruiva prepara os drinques dos clientes. Distribuídos em posições estratégicas, três imensos brutamontes engravatados fazem a segurança do local. Duas garçonetes, vestidas com um tipo de uniforme preto e branco, servem os pedidos nas mesas – além de uma pausa pra uns goles, o bar dispõe de uma cozinha que também oferta uma pequena variedade de porções e refeições À La Carte (em geral, não saía nada muito fora do tradicional: arroz, feijão, bife, e batatas fritas).
Nos cantos das paredes, no alto, quatro pequenas caixas de som. E neste exato momento, elas tocam o refrão de uma agitada canção. A música agrada o recém-chegado, que sorri suavemente.
Dentro do Lloyd´s não havia mais do que vinte pessoas, mas é um número até que expressivo, se considerarmos que hoje é quarta-feira, e que este imenso bar fica no meio do nada. Em geral, metade dos que ali estão são motoqueiros – com suas jaquetas de couro preto, saídos diretamente de um remake dos anos distantes – e o restante é formado por viajantes cansados, caminhoneiros, e meia dúzia de lindas e desacompanhadas mulheres – que, obviamente, estavam sendo paqueradas pelos homens do local.
O recém-chegado caminha até o grande balcão envernizado, onde são servidas as bebidas – em maior número, sem dúvida, estavam as grandes doses de destilados – e preparados os drinques – desde aqueles mais fracos, tipo uma batida de frutas, até umas coisas que ninguém jamais ouvira falar, como é o caso do Touro Sentado na Chuva do Inverno (entre os que beberam, alguns afirmam terem visto gnomos, outros discos voadores, e ainda existem aqueles que juram por Deus que ganharam na loteria federal!).
Senta-se em uma das banquetas vazias diante do balcão.
Parece ignorar por completo todas as outras pessoas que estão no bar – e as pessoas também não demonstram interesse por ele.
A ruiva de olhos azuis sorri para o desconhecido e pergunta, com moderada simpatia:
– Boa noite. O que vai beber?
Ele sorri de volta, e responde:
– Um copo de leite frio, por favor.
Um caminhoneiro, que estava tomando uma dose tripla de uísque do seu lado direito, começa a rir, e se engasga com a própria bebida. A moça do bar, que também achou o pedido engraçado, complementa, com um leve tom de sarcasmo:
– Com chocolate, ou puro?
– Puro... Hoje não me sinto tão rebelde a ponto de misturar o leite com cacau e açúcar... Quem sabe outro dia...
– Ok...
A balconista caminha até um pequeno frigobar bege, abre-o, e tira de dentro uma caixa de leite.
Pega na prateleira uma grande caneca de vidro de 500 ml, que normalmente seria usada pra servir chope, e enche-a com a bebida pálida que verte da caixinha colorida.
Entrega ao cliente, que agradece.
O caminhoneiro olha a cena, incrédulo. Não sabia se estava mais surpreso pelo pedido do estranho, ou pelo fato da moça servir leite em um bar de estrada – já que ali não se servia nem mesmo café expresso...
O jovem percebe o interesse do gorducho e careca caminhoneiro, cujas grossas sobrancelhas se contorciam em uma incógnita estarrecedora, e se justifica:
– É que eu estou com azia, por isso não posso beber...
– Entendo... – responde o gorducho, surpreso com a justificativa.
Algumas pessoas observaram o fato com um leve – e muito breve – interesse.
A música que estava tocando se encerra, e outras começam em seu lugar. O caminhoneiro terminou o seu drinque, pagou a sua conta e foi embora.
A caneca de leite ainda está pela metade.
As poucas mulheres que estavam no bar também já se foram – cada uma saiu acompanhada de um homem de sorte.
A canção que toca agora parece uma mistura de rock’n’roll e sertanejo.
A portinhola da entrada do bar se abre. Um homem loiro e esguio, trajando um terno, entra no recinto. À exceção de sua gravata cinza, toda a sua vestimenta é negra.
O rapaz de camisa xadrez percebe a entrada. Sem nenhum alarde, pega novamente o seu celular, e olha as horas: 01:02.


2.
– O cara está meio deslocado, não acha? – diz o estranho de camisa xadrez, com um sorriso simpático.
– Ele? – A moça ruiva fita brevemente o jovem de terno na entrada do bar, retornando a sua atenção novamente ao bebedor de leite. – Faz três meses que esse advogado vem aqui, pelo menos uma vez por semana, tentar me passar uma cantada. Mas como eu nunca lhe dava moral, ele sempre desistia rápido, e ia atormentar uma outra azarada. Às vezes, até conseguia sair com um desses “alvos”...
– Mas como os outros “alvos” não estão presentes...
– É... – Ela suspira, com um leve desanimo. – Hoje vai ser uma longa noite...
– Então... Você vai dar uma chance pra ele, hoje? – Pergunta o rapaz de xadrez, com um sorriso carregado de sarcasmo.
Sentindo-se desafiada, a moça responde à altura, também esboçando um sorriso malicioso:
– Quem sabe... Afinal, não tem NINGUÉM mais que valha à pena neste bar, hoje...
Fazendo uma cômica expressão de desgosto, lamenta-se, entre sério e brincando:
– Ah, magoei...
A bela ruiva ri.
O homem de preto chega ao balcão e, sorrindo para a balconista, diz:
– Boa noite, Kelly!
– Boa noite, Bruno.
– Você está formidável esta noite, sabia? Cada vez mais linda...
– Obrigada. – Com a delicadeza de um elefante sobre uma pilha de taças de cristal, a bartender desvia o assunto, tentando se prevenir de novas e ridículas investidas. – O que vai beber?
– Uma dose dupla de licor de menta batido com leite condensado, por favor.
– Ok. Só um instante...
Kelly entrega uma taça, contendo o pedido do não muito brilhante advogado. Este sorve um gole, e tenta prosseguir a conversa:
– Eu tinha feito uma viajem pra outro estado, a negócios, e como esse bar fica bem no caminho de volta, eu fiz questão de te fazer uma visitinha. Como você está Kelly, tudo bem?
– Eu estou ótima... – Responde, tentando ser simpática, mas sem conseguir esconder o tédio, e o total descaso com o provável pretendente.
Querendo evitar a monotonia que aquela noite poderia virar, o jovem de xadrez direciona a palavra ao estranho:
– Olha, minha intuição diz que você está com muita sorte esta noite! O que me diz? Topa um pequeno desafio?
O advogado Bruno olha o rapaz, em silêncio, demonstrando certa inquietação. Após um breve instante, responde com outra pergunta:
– Um desafio?
De fato, ele não é dos juristas mais brilhantes...
– Sim, um pequeno jogo. Esquemas fáceis, regras simples, essas coisas. Nada de muito complicado... Sabe jogar sinuca?
O advogado carrega um sorriso cheio de orgulho, e começa a contar vantagem, querendo impressionar a jovem Kelly:
– Mas é claro que eu sei! Tenho uma prateleira em casa, com mais de VINTE TROFÉUS esportivos! Destes, TRÊS são de campeonatos INTERNACIONAIS de Bilhar e Sinuca!
– Vamos jogar então? – Pergunta o desafiante.
A moça do bar apoia:
– Isso! Que tal apostarem a rodada? O perdedor paga tudo.
– Ótima ideia, Kelly! – Afirma Bruno, com uma convicção cega.
– Por mim, tudo bem – complementa o outro.
– Ótimo! – Kelly diz, com uma sutil satisfação permeando sua voz. – Vão lá se divertir então! Tomem. A primeira é por conta da casa.
A jovem lhes entrega uma ficha.
O caneco de leite gelado é virado em um único gole, assim como a taça de licor de menta.
Os dois se levantam de suas banquetas vermelhas.
Caminham para uma das mesas vazias.
Colocam a ficha nela, e um clique se ouve. O advogado puxa uma pequena gaveta, retira as bolas, e coloca-as na mesa. O homem de xadrez forma um triangulo com elas, no canto oposto. De um suporte na parede próxima, cada um deles retira um taco de madeira envernizada.
Após tudo pronto, o estranho olha para o advogado e diz:
– Você primeiro. Pode abrir o jogo.
– Certo.
Uma tacada é desferida pelo homem de terno negro. A bola branca é disparada contra as coloridas com grande violência. O impacto esparrama as pequenas esferas sobre a mesa, e derruba a de número 5.
– Isso! – Comemora o homem de terno.
Continua a sua jogada. Caçapa a bola 3 no canto, e a bola 1 no meio. Por pouco erra a bola 7, que parou na frente da caçapa do canto oposto à que caiu a bola 3.
Em tom de desafio, diz ao seu adversário, com um breve sorriso de quem canta a vitória antes do tempo:
– Sua vez.
O seu adversário jogou... E errou – foi por pouco, mas erro é erro!
Novas tacadas são distribuídas sobre o carpete verde da mesa. O advogado enterra novas esferas coloridas em suas covas circulares. E novos “quases” são fornecidos pelo homem de camisa xadrez...
A partida toda se seguiu assim.
Ao fim do jogo, o desafiante matou apenas a bola 10, enquanto o vitorioso Bruno despachou todas as suas, com uma maestria profissional.
– Revanche? – Pergunta o jovem derrotado.
– Claro! Quer subir a aposta? A rodada e mais cem pratas. Que tal?
– Topo.
O derrotado comprou uma ficha.
A mesa é reaberta, e as pequenas esferas multicoloridas são reagrupadas sobre a mesma.
A música que toca agora é um antigo clássico do hard rock.
O rapaz de xadrez pergunta ao seu adversário, com um tom de curiosidade:
– Me responda uma coisa: você ouviu falar que esta região se tornou meio perigosa nos últimos meses?
– Já. Mas que lugar não é perigoso hoje em dia?
– De fato. Só que o estranho é que aqui só se atacam mulheres, não é mesmo?
O advogado fixa o olhar no seu oponente, com um misto de surpresa e cautela. O estranho continua, focando desafiadoramente os seus olhos nos do jovem de terno negro.
– Segundo o que eu li nos jornais, foram documentadas quatro ocorrências de desaparecimento por estas bandas, mas segundo as fontes não-oficiais, o número real é de vinte e três. Mas como em sua maioria são prostitutas, não tem muita gente que dê por falta delas além dos próprios cafetões... Mas... Como eles rapidamente acham novas garotas pra substituir as que “perderam”, essa falta não dura mais do que 48 horas...
As bolas são arrumadas na mesa.
– Sério? Não ouvi nada de muito profundo a respeito disso... Você deve ser um fã de casos policiais, hein? – Demonstra um sorriso nervoso.
– Só um pouco... – Faz uma rápida pausa, abaixando o olhar e fixando-o na mesa, estudando o jogo. Ergue os olhos de volta ao advogado. – Você pode começar de novo, se quiser...
O advogado abre a rodada, sem derrubar nenhuma bola agora. Demonstra uma ligeira alteração, como se estivesse perturbado com alguma coisa.
O oponente sorri.
– Ué? Será que a sua sorte está acabando? – Brinca o rapaz de xadrez, em tom provocador, sem esconder um sorriso carregado de maldade.
– Não... Só estou te dando uma chance...
– Que gentileza! Obrigado. – Diz, em tom irônico.
Os olhos de ambos agora faíscam. Parecem acesos pavios de dinamite, que já queimaram quase toda a sua extensão – três, dois, um, KABOOM!!!
O jovem de cabelos escuros estira seus ombros, em um movimento circular. Aponta o taco para a bola branca, que está bem no centro da mesa. Estuda o jogo novamente, e afirma confiante:
– Todas as menores, caçapas do canto. Bola 8, caçapa do meio.
– Duvido!
O rapaz efetua uma tacada. Um baque violento é ouvido, e a bola branca se encaminha na direção da bola número 3, que estava de frente para uma das caçapas do meio. Retira-a de sua posição original, e derruba-a em uma das caçapas do canto. A bola branca, enquanto isso, ricocheteia em cada uma das outras seis bolas menores, derrubando uma a uma, somente nas caçapas do canto. Por fim, a pequena esfera branca sem número acerta de raspão a bola negra na qual está gravada o numeral 8, e derruba-a, lenta e precisamente, em uma das caçapas do centro – um movimento perfeito.
O advogado Bruno olha a cena, embasbacado, sem conseguir esconder a reação de surpresa.
O jovem de roupa batida sorri maldosamente. Aproxima-se de seu adversário, e ergue a sua mão esquerda, com a palma aberta e virada pra cima.
– Acho que eu ganhei, certo? – Faz um rápido gesto de balançar lateralmente a cabeça, acenando na direção do balcão de bebidas. – Pra ela, você paga a rodada. Pra mim, cem pratas.
– Certo... Jogo é jogo. – Tenta demonstrar dignidade, mas, no fundo, odiou perder. Retira a carteira do bolso, e pega duas notas de cinquenta, entregando-as ao vitorioso desconhecido. – Aqui.
– Certo. – O homem de xadrez junta as notas e as dobra ao meio. Guarda o dinheiro no bolso da camisa, voltando a fixar o seu olhar nos olhos de seu oponente. Com um sutil sorriso, e um tom de voz entre desafiador e sarcástico, prossegue o seu pequeno discurso. – Nos vemos por ai. Talvez em breve...
– É. Talvez em breve...
Ambos apertam as mãos.
– Ah é, tem mais uma coisa. Já que eu ganhei as cem pratas, vou te deixar um conselho, como prêmio de consolação: o leite é ótimo pra disfarçar cheiros fortes, tipo o cheiro de sangue. Um “conselho grátis”, caso precise...
– Ok, vou me lembrar disso... – Estas palavras soaram tão pesadas quanto um bloco de chumbo.
O vencedor retorna até o balcão. O rapaz de terno negro fica parado, estático, como se tivesse visto um fantasma. A única coisa que se move são os seus olhos: as orbitas acompanham o seu oponente com uma precisão cirúrgica.
Ao chegar ao balcão, comenta, com um sedutor sorriso no rosto:
– Ganhei. Agora, a rodada é por conta dele.
– Coitadinho... Olha a cara de “cachorrinho sem dono” que ele está fazendo...
– Pois é. Acho que ele quer um consolo... Um colo pra chorar.
– Boa sorte pra ele, se conseguir achar alguém pra isso.
– Gostei de te conhecer. Pena eu ter que ir agora, mas quem sabe a gente se vê de novo, em breve...
– Seria bom...
 Ele se aproxima, curvando-se sobre o balcão, e aplica um caloroso beijo no rosto da bela ruiva chamada Kelly.
– A gente se vê, linda.
– Claro. Até.
Ele caminha de volta a entrada. No percurso, passa próximo da mesa de sinuca, onde o jovem loiro de cabelos curtos ainda está parado – perplexo, pensativo, e de certa forma, apavorado, seria mais correto dizer. O rapaz de xadrez acena com a mão esquerda, fazendo um rápido gesto de adeus com a palma aberta, dizendo:
– Falou. Até mais.
O advogado acena com a cabeça, sem muito eufemismo.
Continua caminhado, até chegar à porta do bar. Abre as portinholas de Saloon, e sai.
Seu distanciamento é seguido pelos olhares de Bruno e Kelly.
Após o estranho sumir da vista de ambos, ele embarca novamente em seu elitista cupê vermelho, e parte pela estrada, adentrando a madrugada escura.
A atenção de Kelly volta-se para Bruno, que já deixara os tacos no suporte original, e retornava lentamente para o balcão.

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Sobre a obra – Bloody Eyes

A expressão “Bloody Eyes” (ou “olhos sangrentos”, em português) pode ser usada para diversos significados. Dois deles são relacionados à medicina:

>> Um deles é Hifema, que é o acumulo de sangue dentro do olho, tingindo-o;
>> O outro é Hemolacria, que é a ato de chorar sangue.

Em especial, esses dois conceitos médicos são os que mais contribuíram para este ser o nome da obra em questão.
Bloody Eyes nasceu de uma historia em quadrinhos um tanto amadora, que rabisquei em 2008, na qual narrava uma batalha entre dois monstros. Confesso que, do conceito original, não restou quase nada...
Desde 2008 tenho elaborado esse projeto, gerando inúmeras modificações no mesmo, até tudo chegar ao resultado que desejava.
Esta é uma história de ação e mistério, com pitadas de comédia, drama, e horror. Um estilo que gosto de chamar de “Terror-Comédia”.
O protagonista chama-se Dorian Drake; ele é um detetive particular que também trabalha de músico de vez em quando. Ele possui um passado trágico, além de ter parte de sua memória apagada por uma crise de amnésia quando ele era criança. É dono de um estabelecimento comercial de nome curioso: “Desgraça Pouca é Bobagem”.
Apesar de Dorian exercer o protagonismo da história, nem sempre ele será o enfoque da narrativa. Pelo contrário, haverá episódios em que ele nem mesmo participará. A ideia de Bloody Eyes é ser uma “teia vital”, interligando diversos personagens e suas respectivas histórias.
A narrativa se passará em diversos lugares, todos fictícios e exclusivos deste universo, mas terá como base uma cidade chamada Cantuária. Neste universo, quase tudo que esta no imaginário popular é real, desde a Fada do Dente e o Papai Noel, ate os Monstros e os Feiticeiros.
Esta novela foi concebida com 46 capítulos. De acordo com a aceitação do público, ela talvez possa ser ajustada (mas, no mínimo, terá 5 capítulos publicados). Entendo que 46 é um numero muito ambicioso para uma série de livros estreante. A razão disso é que Bloody Eyes foi criado com um conceito mais visual do que qualquer outra coisa: a ideia é que cada livro “emule” um episódio de uma série, que será composta de “3 temporadas de 15 episódios”, e um “filme de encerramento”. Considero essa abordagem inovadora, pois nunca vi nada parecido antes. É quase que uma desconstrução do gênero. Agora, se ela vai ser ou não bem aceita, depende do público.

Eu espero que gostem!

Bloody Eyes - 01


“Bem-aventurados aqueles que não acreditam em lobisomens, vampiros, sereias assassinas, fantasmas, homenzinhos verdes, e monstros do gênero. Porque deles será a opinião pública.”

Dorian é um detetive particular especializado em casos sobrenaturais. Folgado e trapaceiro, ele sempre agiu sem medir as consequências de seus atos. Porém, o seu estilo de vida irresponsável é ameaçado quando a polícia investiga um de seus casos. Através deste confronto, serão revelados os mistérios de um mundo feito de mentiras e ilusões. Um mundo que manipula sonhos e medos, dia após dia, seguindo suas próprias regras. Um lugar repleto de segredos, onde tudo é possível, e onde os únicos limites estão dentro de nossas próprias mentes.



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O Diário de um Sobrevivente

Sempre tentamos imaginar como seria o fim da humanidade. Tecemos tantas teorias fantásticas sobre invasões alienígenas e mortos voltando a vida, que nos esquecemos de um simples detalhe: a dissolução da sociedade humana, provavelmente, seria o suficiente para fazer esse tarefa por si mesma.
Talvez seja por isso que nós temos o hábito de contar tantas histórias apocalípticas para assustar as nossas crianças e para entreter os nossos amigos: esconder de nós mesmos o medo de que tudo isso realmente acabe um dia.
Nesta história, você poderá vivenciar este medo: você irá acompanhar o cotidiano de um garoto que aprendeu a viver sozinho em meio ao caos, e se tornou uma testemunha ocular do fim de uma era. Através das notas em seu diário, você vai descobrir como as pessoas podem ser arruinadas pelos seus mais improváveis inimigos. E através de seus atos, perceberá o imenso poder criador que a mente humana possui.




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